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União e cooperação: a receita de sucesso das formigas-cortadeiras
Por: Karina Dias Amaral                                           Postado dia 29/06/2021Bióloga, Mestre e Doutora em Entomologia pela Universidade Federal de Viçosa. Atua na área de mirmecologia, com interesse em biologia, ecologia e controle de formigas-cortadeiras.









A vida em sociedade, a subsistência alimentar baseada na prática da agricultura, a divisão do trabalho e a cooperação no cuidado dos filhos são hábitos humanos muito comuns em diversas partes do mundo. Porém, aqui vamos conhecer outro grupo que compartilha todas essas características conosco: as formigas-cortadeiras!

A fungivoria, hábito pouco comum entre os animais, é praticado pelas cortadeiras há cerca de 50 milhões de anos. Além de consumirem fungos, essas formigas passaram, desde então, a cultivá-los numa forma de agricultura bastante avançada, utilizando essencialmente partes frescas das plantas para o cultivo desse fungos. Por outro lado, a agricultura começou a ser praticada pelos humanos há cerca de 10.000 anos e foi um marco no nosso sucesso evolutivo. Muito mais recente é o conflito dessas duas formas de agricultura, em que, sob um olhar, de certo modo antropocêntrico, as cortadeiras se tornaram pragas de muitas culturas exploradas pelo homem.

Temidas por muitos, elas podem fazer verdadeiros estragos em pomares, hortas e jardins. Esses insetos são pragas importantes na agricultura e nas florestas cultivadas, gerando enormes prejuízos econômicos. Seus ninhos podem conter milhares de indivíduos e atingirem dimensões inacreditáveis para insetos tão pequenos. Porém, muito além do seu status de praga, seus hábitos de vida e sua organização social complexa tornaram a biologia desses insetos extremamente fascinante!

A colônia se inicia quando uma fêmea fecundada (também popularmente chamada tanajura) perde suas asas e inicia a escavação do ninho, logo após o voo nupcial; período do ano em que machos e fêmeas saem em revoada. O macho morre e a fêmea dará início ao novo formigueiro. Assim que forma sua primeira câmara no solo, essa fêmea, agora chamada rainha, começa a botar ovos e a cultivar um fragmento do fungo que trouxe da colônia onde nasceu, até que as primeiras operárias comecem a nascer e coletar folhas para cultivá-lo. Cerca de três anos depois, esse ninho já contará com diversas câmaras de fungos e milhares de formigas. Nessa fase, também já produz suas 
próprias tanajuras durante a revoada, dando origem a novas colônias.

Os ninhos das formigas-cortadeiras são muito sofisticados. Externamente, observa-se montes de terra solta e diversos orifícios (Fig. 1). Além disso, é possível notar a presença de caminhos bem definidos, ou trilhas, que saem desses orifícios e chegam até as plantas exploradas (Fig. 2 e Fig. 3). Sob o solo, encontramos túneis de diversos diâmetros e formas que fazem a conexão das câmaras com os orifícios externos, permitindo o trânsito das formigas. A maioria das câmaras é preenchida com o jardim de fungo, enquanto outras funcionam como depósito de lixo, constituído principalmente de indivíduos mortos e partes
mortas do fungo.
Imagem da Bocaina
Figura 1: Monte de terra solta de uma colônia adulta de Atta sexdens.
Um ninho adulto é composto por grupos de operárias, organizadas por tamanho ou idade, que desempenham funções específicas dentro do formigueiro. Podemos dividi-las em quatro grupos principais: soldados, forrageadoras, generalistas e jardineiras (Fig. 4).

As operárias maiores, os soldados, são responsáveis pela defesa da colônia, são aquelas operárias bem grandes, popularmente chamadas de “formigas-cabeçudas”, que não perdem tempo quando um intruso aparece no ninho. Com suas mandíbulas fortes e esclerotizadas elas o colocam para correr! As forrageadoras, um pouco menores, são as responsáveis por cortarem e transportarem as folhas para o ninho. As generalistas desenvolvem várias atividades no interior do ninho, como cuidado com o jardim de fungo, limpeza da colônia e cuidado com a rainha. As jardineiras, operárias bem pequenas, também conhecidas como babás, cuidam da prole e do fungo. A rainha, por outro lado, é a responsável pela postura dos ovos, e, em muitas espécies, é o único indivíduo reprodutivo da colônia.
Imagem Bocaina

Figura 4: Castas de formigas-cortadeiras. Da esquerda para a direita: jardineira, forrageadora, soldado, rainha e macho alado.

A atividade de forrageamento se inicia com a exploração do ambiente por algumas operárias, que são influenciadas pelas pistas de odores liberadas pelas plantas exibindo uma resposta que pode ser de rejeição ou atração. Quando são atraídas, as operárias examinam o vegetal e quando esse se mostra viável, retornam para a colônia e transferem essa informação para as companheiras, recrutando-as em número suficente para que o corte e o transporte sejam eficientes (Fig. 5). Assim que é trazido para o ninho, o material é degradado pelas operárias generalistas, que o lambem com suas maxilas, hidratando-o antes de sua transferência para o jardim de fungo. Em seguida, as jardineiras transferem fragmentos de hifas para o material recém processado, incorporando-os ao fungo em crescimento.
Imagem Bocaina

Figura 5: Operárias transportando uma semente para o ninho.

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As formigas-cortadeiras possuem ainda inúmeros outros aspectos interessantes em sua biologia que merecem nossa atenção e estudo. A vida nessa sociedade só é possível devido a organização social complexa e cooperação entre os indivíduos visando a um objetivo comum: o sucesso da colônia! Momentos de crise, como a atual da pandemia da Covid-19, mostram para a sociedade o quão essencial, inclusive para a manutenção e sobrevivência da espécie, são o trabalho em equipe e a cooperação coletiva. Uma coisa é certa: as sociedades humanas ainda têm muito a aprender com os insetos sociais...

Mais sobre a autora:

Fotos: Karina Amaral
E-mail: [email protected]
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ResearchGate: https://www.researchgate.net/profile/Karina-Amaral-3

Referências:

DELLA LUCIA, T. M. C. (Ed.). Formigas-cortadeiras:da bioecologia ao manejo. Viçosa: Editora UFV, 2011.
HÖLLDOBLER, B.; WILSON, E. O. The Ants. Springer, Berlin Heidelberg, New York, 1990.