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Foi difícil comemorar o Dia do Biólogo

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03 de setembro de 2018 – Texto de Lucas Perillo

 

No Dia do Biólogo de 2018, nada de comemoração. Que triste sentimento nos consome.

Logo após os alunos saírem do sítio que abriga todo semestre a mais de dez anos a primeira experiência de campo de alunos recém-ingressos no curso de Ciências Biológicas da UFMG, veio a notícia. Depois da despedida calorosa daqueles que são o futuro da Biologia brasileira, dos olhos emocionados depois de escutarem sobre as tantas opções fantásticas que a biologia proporciona, de tanta certeza de que fizeram a escolha certa, veio a notícia. Na véspera do dia do Biólogo o Museu Nacional do Rio de Janeiro ardeu em chamas. Personificação da negligência, o incêndio destruiu em horas o que centenas de pesquisadores, naturalistas e imperadores reuniram por séculos.

Não consigo comemorar o Dia do Biólogo, não tenho forças nem para dar parabéns aos inúmeros amigos de profissão que produziram e produzem tanta coisa relevante para a ciência nos últimos anos. Passar meses acampado no mato, seja no dia mais quente ou na chuva mais fria da madrugada perde muito do sentido quando vemos todo o esforço em cinzas. Acreditávamos que o mais difícil era ir atrás das espécies, de encontrar esperança em cada novo registro. Mas parece que não. Parece que o difícil é manter todo esse esforço guardado em segurança. De que adianta o esforço se o mais básico não é garantido? 

O Museu Nacional tinha milhares de coletas únicas, espécies raras de diferentes regiões do Brasil e do mundo, algumas dessas talvez nem existam mais na natureza. E agora não existem em lugar nenhum. Se tornaram vazias as infindáveis discussões sobre ética na coleta de material biológico e das licenças de coleta cada vez mais burocráticas. Tudo perdeu o sentido com a hipocrisia de que as coleções ficariam ali preservadas por gerações. Triste a constatação de que tudo no Brasil é descartável. Na natureza já temos exemplos suficientes para adiar a celebração do nosso dia por décadas. O crime ao Rio Doce continua sem soluções dignas, desmatamento continua à níveis preocupantes e espécies são extintas diariamente. E agora, como um golpe derradeiro temos uma das maiores e mais importantes coleções exterminada pelo descaso. O prelúdio veio com a destruição do Butantã. Como o caso do Mar de Lama, acreditava que o ocorrido com a coleção de São Paulo seria suficiente para impedir qualquer fato parecido de acontecer novamente. Estava enganado.

 Agora é tarde demais. Tanta coisa se perdeu. Materiais insubstituíveis deixaram de existir. Fósseis formados por milhões de anos em condições tão raras e especiais agora não existem mais. O principal achado da nossa arqueologia esperou milênios para ser encontrado e não resistiu. Bastaram décadas fora do seu lar para que deixasse de existir. A perda da Luzia me traz um pesar tão grande que imagino todos que vieram depois dela chorando a morte de tamanha descoberta. Povos que construíram a história, que moldaram os ambientes brasileiros muito antes da chegada colonizadora.

Sentimento hoje é de perda, de remorso e de que a esperança de mudança está cada vez mais distante. Um dos lemas do biólogo é sempre acreditar. O nosso trabalho exige isso. Mas hoje, só por hoje, não consigo acreditar. O dia de hoje não é de comemoração. Não temos força pra isso. O dia é de luto, de reflexão. Reflexão sobre o verdadeiro papel do biólogo, do que podemos fazer para mudar o tenebroso cenário do nosso país e do quão distante estamos do mínimo ideal. 

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