Receba todas as nossas novidades e conteúdos exclusivos

Início > Conteúdos > Ciência em Ação > O ataque dos neoliberais ao planeta Terra

O ataque dos neoliberais ao planeta Terra

Autores do Blog Ciência em Ação

Por: Ricardo Iglesias Rios
Postado dia 29/08/2021

Pesquisador Visitante Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Bolsista FAPERJ
Doutorado em Ecologia pela Universitat de Barcelona – España
Especialização em Genética pela UFRJ – Rio de Janeiro









O Sr. Matt Ridley é basicamente um jornalista que obteve seu PhD em Zoologia estudando o comportamento de faisões. Depois do PhD, não publicou nenhum artigo científico relevante, dedicando-se a divulgação científica. Uma carreira muito semelhante à do jornalista Richard Dawkins, que obteve seu PhD na área da genética do comportamento. Depois disso nunca mais publicou um artigo científico relevante, dedicando-se como jornalista à divulgação científica.

Matt Ridley politicamente é um conservador militante do mesmo partido da Sra. Margaret Thatcher. Durante muitos anos foi editor da revista The Economist, uma revista que ama o neoliberalismo. Em algum outro lugar escrevi: “...o neoliberalismo é uma patologia típica das elites financeiras. O neoliberalismo é o grande responsável pela aceleração do aquecimento global” (Iglesias 2018).

Dawkins e Ridley já venderam mais de um milhão de seus livros com tradução em 30 idiomas. Isso os coloca como pessoas muito influentes, portanto, suas opiniões são internalizadas com frequência e acriticamente por milhares de pessoas.

Recentemente, Dawkins se desentendeu com um amigo, e aliado de longa data na defesa da ideia de que a seleção natural de grupos era impossível. Refiro-me a Edward Osborne Wilson, que ousou defender a ação da seleção natural atuando acima do nível do indivíduo, admitindo a realidade da “multilevel action of natural selection”. Isso enfureceu Dawkins que acusou Wilson de não saber o que significaria a seleção natural. Wilson em entrevista à BBC News 2014 respondeu: Dawkins é um jornalista científico e sua única função é escrever sobre descobertas que os cientistas como eu realizam.

Um caso muito interessante de aceitação de uma teoria científica é a teoria de Ptolomeu, matemático grego que criou o sistema geocêntrico por volta do ano 100 d.C. Essa teoria, considerada correta, com muitas evidências empíricas, sobreviveu até 1543, logo por mais de 1.400 anos quando foi substituída pelo sistema heliocêntrico de Copérnico. Foi incrível a capacidade de Ptolomeu em criar hipóteses ”ad hoc”, os chamados epiciclos, para que os dados empíricos de suas observações se ajustassem à sua teoria. Foi significativo o fato de que Copérnico, clérigo católico nascido na Polônia, soubesse que sua teoria iria desagradar fortemente as autoridades eclesiásticas de sua época. Por isso, só publicou a sua teoria depois de receber a extrema-unção, autorizando seu secretário a publicar suas descobertas. É importante realçar que a tanto a teoria de Ptolomeu como a de Copérnico foram criadas seguindo estritamente o método científico aceito em suas épocas.

Quando fazia meu doutorado em Ecologia (anos 80), orientado pelo grande Ramon Margalef, havia um embate científico sobre a questão da importância do fósforo e do nitrogênio na eutrofização dos ecossistemas aquáticos. Basicamente se perguntava qual seria o nutriente limitante da produtividade primária nesses ecossistemas. Um grupo defendia ser o nitrogênio; outro grupo afirmava ser o fósforo. Naquela época, os detergentes usados na limpeza doméstica continham grande quantidade de fósforo e a indústria de detergentes financiava com milhares de dólares pesquisas cujo objetivo fosse confirmar que o nitrogênio era o nutriente limitante. Entretanto, essa inciativa não adiantou: mesmo sem muitos recursos os cientistas demonstraram que o fósforo presente nos detergentes era o principal agente da eutrofização. Daí surgiram leis que obrigaram a indústria de detergentes a eliminar o fósforo na fabricação de detergentes. Esse exemplo é uma demonstração que a influência dos interesses econômicos não pode ser subestimada na produção dos trabalhos científicos. Por outro lado, a ciência tem condições para evitar o prolongamento na aceitação de hipóteses científicas erradas.
A ciência busca a verdade, contudo como diz meu amigo Rogério Parentoni, a verdade não é universal; depende do contexto cultural. Isso me leva a uma afirmação de Ramon Margalef de que há consequências no fato de você ser anglo-saxão, protestante e torcer pelo Manchester United ou ser latino, católico e torcer pelo Flamengo. São culturas diferentes e na hora de criar as hipóteses científicas a cultura importa. Como geralmente a observação só é possível se for precedida de uma teoria, a cultura vai inevitavelmente interferir na criação de hipóteses científicas que são desenvolvidas antes das observações.

A vantagem da ciência é a de que as regras de método científico limitam a permanência, no tempo, de hipóteses erradas, ao contrário das metáforas e hipóteses religiosas que são eternas. Todavia, não devemos esquecer que a hipótese errada de Ptolomeu durou 1.400 anos e, pior que isso, não existe como provar que qualquer hipótese seja correta.
Richard Dawkins, apesar de ideologicamente muito diferente de Matt Ridley, por ser membro do partido trabalhista, partido mais próximo da esquerda que o conservador, apoiou as lutas contra a guerra de Vietnã e condenou a invasão do Iraque realizada pelo Sr. Georg W. Bush. Por outro lado, Dawkins, em minha opinião, foi o grande divulgador do determinismo genético, com seu livro O Gene Egoísta de 1976, cuja mensagem é a de que características comportamentais, fisiológicas e anatômicas dos seres vivos são determinadas pelos genes. Essa teoria faz parte, hoje, do senso comum, o que pode ser caracterizado pela frase “está no DNA”, afirmação essa mais próxima do racismo e do fascismo do que de uma teoria científica. Atualmente, graças à biologia molecular, já está sobejamente provado que os genes são necessários, mas são insuficientes para determinar características fenotípicas. O ambiente é um grande protagonista na formação dos fenótipos, principalmente durante a ontogênese. A recusa por alguns biólogos desse fato se deve, em parte, a um preconceito ligado a teoria Lamarckista. Porém, a ideia de que ao conhecer o genótipo saberemos os fenótipos é ultrapassada. Contudo, o determinismo genético difundido por Richard Dawkins e, até recentemente, por Edward Osborne Wilson em seu livro Sociobiologia: a nova síntese (1975), influenciou milhares de pessoas, entre elas destaco o escritor oxfordiano Yuval Harari também com seu PhD obtido na Oxford University como ocorreu com Matt Ridley.

Yuval Noah Harari, publicou um livro com o título de 21 lições para o século XXI (2018) que vende milhões de exemplares sendo traduzido em dezenas de países. Harari acredita no determinismo genético. A seguir, apresento algumas evidências dessa afirmação. Em primeiro lugar Yuval trata Richard Dawkins com grande respeito, referindo-se a ele como “eminente Biólogo”. As duas citações abaixo (há outras no livro) foram retiradas de seu contexto, o que pode alterar o significado que o autor quis dar, por isso recomento que se leia o livro para evitar que eu tenha cometido alguma injustiça ao afirmar Harari como seguidor do determinismo genético.

“Quantos cristões oferecem nos dias de hoje, a outra face? Quantos budistas se elevam na realidade acima das obsessões egoístas? Quantos judeus amam realmente seus vizinhos como a si mesmos? Esta é justamente a maneira como a seleção natural modelou o Homo sapiens. Igualmente como fez com todos os mamíferos. O Homo sapiens emprega as emoções para tomar rápidas decisões de vida ou morte. Herdamos nossa ira, nosso medo e nossos desejos de milhões de antepassados, os quais foram aprovados pelo controle de qualidade muito rigorosa da seleção natural”. (p. 80)

“Apesar das vantagens de transformar tribos e clãs em uma nação única, essa transformação nunca foi simples nem em épocas antigas nem na atualidade. Porque o nacionalismo tem duas partes, uma fácil, a outro muito difícil. A parte fácil é preferir as pessoas como nos mesmos antes que os estranhos. Os humanos assim o fizeram durante milhões de anos. A xenofobia está em nosso DNA. ” (p. 133 tradução e ênfase minha).

Creio não haver dúvida razoável de que o Sr. Yuval assimilou o determinismo genético do Sr. Richard Dawkins, mas devemos lembrar que ele é um historiador, que eu chamaria de “bom historiador” e, como tal, não está a par das últimas descobertas de Biologia Molecular: ele apenas repete a frase “está no DNA”, tão generalizada que até mesmo alguns biólogos a utilizam.

Considero a posição do Sr. Matt Ridley bem mais grave. Ele declarou em um artigo de 2015: “A ciência é autocorretiva. O bom expulsa o mau porque os experimentos são replicados e as hipóteses são testadas através dos resultados empíricos obtidos”. Até aqui Ridley vai muito bem, mas infelizmente acrescenta a barbaridade: “Neste momento mudei de ideia graças aos acontecimentos sobre a ciência do clima. As ideias erradas podem persistir na ciência por décadas, protegidas por defensores raivosos, verdadeiros lacaios servis [referências aos defensores do aquecimento global]. Essas ideias ruins podem se transformar em dogmas intolerantes”. Para justificar essas observações infelizes o Sr. Ridley apela para a memória de Trofim Lysenko, cientista russo que protagonizou acontecimentos lamentáveis durante o governo de Stalin na URSS. O Sr. Ridley é um neoliberal que ainda vive o tempo da guerra fria entre EUA e a URSS, a qual terminou em 1989 com a queda do muro de Berlim e foi enterrada em 1990 com a dissolução da URSS por Michail Gorbatchov. Não sei quantas pessoas conhecem a história de Trofim Lysenko, por essa razão farei um breve resumo dessa história que considero muito triste por vários motivos.
Trofim Lysenko um negacionista perigoso

As informações do texto a seguir em grande parte foram obtidas do livro de Gilbert & Epel 2015.
A Rússia, nas três primeiras décadas do século XX, tinha notáveis cientistas nas áreas da fisiologia, biologia do desenvolvimento e genética, mas também um obscuro cientista, chamado Trofim Denisovich Lysenko, que se dedicava a hibridização de plantas. Lysenko descobriu o princípio de vernalização, que consiste na aquisição, pelo trigo, da capacidade de florir na primavera quando essas plantas são expostas a um choque de baixas temperaturas. Essa floração precoce permite grande produção do trigo na Rússia, um país com estações curtas, em função do clima muito frio para a produção de cereais. Muitas plantas apresentam naturalmente esse processo de vernalização, mas de fato, Lysenko com muitos dados fraudados conseguiu demonstrar que era possível encurtar o período de crescimento do trigo. Ato seguinte, Lysenko conseguiu o apoio de ditador sanguinário Joseph Stalin para assumir a presidência da Academia Soviética de Ciências.

Lysenko se autodeclarava lamarckista, embora eu tenha dúvidas se de fato ele conhecia o trabalho de Lamarck. Instalado no poder com o apoio de Stalin, rapidamente promoveu uma campanha de perseguição a todos importantes cientistas russos. Cientistas como Sergeevich Chetverikov, um geneticista que foi o primeiro em aplicar às leis de Mendel às populações naturais, fez importantes contribuições a teoria moderna da evolução. Nicolai Severtzov, naturalista e grande taxonomista: o Instituto de Ecologia e Evolução da Academia de Ciências da Rússia foi batizada com seu nome. Yuri Philipchenko, criador dos termos “macroevolução” e “microevolução” e mentor do grande geneticista Theodosius Dobzhansky. Georgii Karpechenko, citologista que descobriu a especiação por alopoliploidia.
 Timofeev-Ressovsky, radiobiologista que fez importantes descobertas sobre as mutações dos genes e, ainda, o grande Nicolai Vavilof, botânico e geneticista muito respeitado no Ocidente que identificou o centro de distribuição das plantas que servem de alimento para a humanidade. Todos foram acusados por Lysenko de conspirar contra o regime russo, alguns foram presos, outros fugiram do país e Vavilof foi condenado à morte por fuzilamento, tendo sua pena sido comutada para prisão perpétua. Vavilov morreu na Sibéria em 1943, provavelmente de inanição. De acordo com Gilbert & Epel (2017), na sua campanha para destruir a genética na Rússia, Lysenko argumentava: “A genética é um produto capitalista, o gene é uma entidade metafísica que não desempenha função relevante na determinação das características dos indivíduos. As espécies têm muita plasticidade que se manifesta em função da variação das condições ambientais”. A primeira parte da afirmação de Lysenko é um absurdo completo embora a segunda parte esteja correta.

A ascensão de Lysenko ao poder foi possível pelo apoio recebido do ditador Stalin, mas também ajudaram a aumentar seu prestígio alguns acontecimentos ocorridos na Europa no final do século XIX e início do século XX. Refiro-me ao surgimento da Eugenia, uma teoria pseudocientífica criada por Francis Galton e Karl Person. Esses dois eram cientistas muito bem-conceituados, Galton (1874) estudou medicina e publicou mais de 300 artigos abordando áreas tão diversas como Meteorologia, Geografia, Psicometria, e em colaboração com Karl Pearson publicou trabalhos fundamentais até os dias de hoje na área de Estatística. Galton é considerado uma espécie de pai da Genética Humana.

Galton fez estudos sobre a inteligência dos humanos e conclui que a família real inglesa, seus ascendentes e descendentes eram de uma inteligência superior e a inteligência era herdada através dos fatores hereditários. O termo Eugenia é anterior ao termo Genética, que foi criado apenas em 1908 por William Bateson, por isso não se usava a palavra gene para nomear os fatores mendelianos da hereditariedade. Só em 1909 “gene” foi cunhado pelo dinamarquês Wilhelm Johannsen, que também criou genótipo e fenótipo. Em seus estudos sobre a inteligência Galton postulou a necessidade de um programa de Eugenia positiva, que em resumo tinha como objetivo facilitar e incentivar a reprodução de pessoas com as melhores características hereditárias ou evitar casamentos indesejáveis. A Eugenia se espalha pela Europa e pelos EUA, mas é também apropriada pelos seguidores de Hitler como uma eugenia negativa que visava eliminar os genes ruins ou impuros, para preservar a pureza da raça ariana. Foram nessas circunstâncias que ocorreram os deploráveis acontecimentos do genocídio de milhões de seres humanos.

Na Rússia, Lysenko fez uma enorme campanha popular contra a Eugenia, considerando que se tratava de uma teoria racista baseada na genética, tendo em vista que nessa época a Rússia estava em Guerra com a Alemanha e estava perdendo milhares de soldados, Lysenko foi considerado uma espécie de herói nacional. Um outro acontecimento também ocorrido na Europa nessa mesma época teve muita influência para aumentar o descrédito do Lamarckismo. Refiro-me aos acontecimentos na vida de um biólogo austríaco de nome Paul Kammerer.

Kammerer foi um Biólogo, e também músico, nascido na Áustria em 1880 trabalhou no Prater Vivarium of Viena, um importante centro de pesquisa onde se dedicava a estudos da plasticidade fenotípica durante a ontogenia dos seres vivos. Fez vários trabalhos relevantes nessa área conseguindo, através de manipulações do ambiente, que salamandras de caverna cegas desenvolvessem olhos funcionais. Seu trabalho mais famoso foi feito com um anfíbio do gênero Alytes, um sapo que se reproduz em terra firme e os ovos fecundados ficam presos nas pernas do macho. Os machos têm, portanto, cuidado parental com a prole - Kammerer levou machos e fêmeas para aquários e conseguiu que alguns casais se reproduzissem no ambiente aquático; os ovos fecundados que ficavam boiando no aquário eram recolhidos e quando geravam indivíduos adultos o processo era repetido.

Depois de algumas gerações Kammerer e seu assistente notaram que os machos tinham desenvolvido uma espécie de almofada, formada por pele rugosa e escura nos membros anteriores. Essa almofada (nupcial pad) dos machos facilitava o equilíbrio do macho sobre a fêmea no ambiente aquático. Como bom Lamarckista, Kammerer alardeou para o mundo científico que tinha conseguido induzir um novo fenótipo nos anfíbios e que esse novo fenótipo era hereditário, logo Lamarck estava certo sobre a herança dos caracteres adquiridos. O sapo de Kammerer se tornou muito famoso e foi exibido por ele em vários congressos até no Museu Britânico onde alguns cientistas viram a almofada nupcial e outros não (Gliboff 2009).

O laboratório de Kammerer foi bombardeado e destruído pelos alemães, mas um estudante de Biologia americano conseguiu retirar dos escombros um exemplar intacto do famoso sapo. No entanto, ao examinar esse exemplar com o auxílio de uma lupa esse estudante descobriu que a almofada nupcial, com sua pele rugosa e escura era o resultado de uma injeção subcutânea de tinta da china, conhecida no Brasil como tinta nanquim. Kammerer foi acusado de fraude e a notícia correu o mundo pela mídia. As notícias dos jornais diziam: O famoso pesquisador Paul Kammerer, que havia sido convidado por Trofim Lysenko para trabalhar na Rússia, fraudou os experimentos que mostravam uma confirmação do Lamarckismo. Algumas semanas depois Paul Kammerer se suicidou com um tiro na cabeça. Como diria um grande amigo meu chamado Gilberto Mitchell, essa história “parece a Bíblia contada por satanás”, explico:
É necessário introduzir uma nova personagem nessa história. Trata-se da belíssima mulher Alma Margaretha Maria Schindler, compositora de música clássica e nascida em Viena em 1879. Virtuosa do piano, se casou várias vezes. Primeiro com o compositor e maestro Alexander von Zeminsky. O casamento durou pouco e Alma se casou novamente, agora com Gustavo Mahler famoso compositor que está, até nossos dias, entre os maiores compositores da música clássica. Depois da morte de Mahler, Alma vai trabalhar como bióloga no laboratório de Kammerer. Os dois vivem um tórrido romance e Kammerer pede que Alma se case com ele. Alma não aceita e vai embora, casando-se novamente com um arquiteto, Walter Gropius. O casamento dura pouco e Alma se casa outra vez, agora com o poeta e dramaturgo Franz Wertel. Nessa época os nazistas invadem a Áustria e o casal foge para os EUA.

Paul Kammerer diante da recusa do pedido de casamento que fez à Alma, ameaçou se suicidar com um tiro na cabeça, diante do túmulo de Mahler. Alma não se intimidou e foi embora, Kammerer entrou em depressão, provavelmente sofrendo da síndrome do Romeu de Shakespeare que, ao ver sua Julieta morta decide também se suicidar.
Em um livro de 1971 Arthur Koestler argumenta que um inimigo de Kammerer tenha injetado a tinta da china e que o suicídio ocorreu em função da dor profunda pela perda de sua amada Alma. Gliboff em 2006 publicou um artigo com um outro final, naquela época a fotografia não tinha os recursos que hoje existem, por essa razão o assistente de Kammerer usou um pouco de tinta da china para realçar a almofada nupcial.

Os leitores e leitoras podem escolher a história que mais gostarem, essa provavelmente será a mais verdadeira, lembrando Friedrich Nietzsche, o eterno iconoclasta e irreverente, que nos diz: “... não existem fatos, apenas interpretações”. Aqui cabe lembrar também o filósofo espanhol Ortega Y Gasset, quando afirma: “Eu sou eu e minha circunstância”, aqui eu vou me permitir interpretar essa frase do grande Ortega y Gasset, na forma: Eu sou eu, mas dependo da minha circunstância. Circunstância significa, aqui, algo que está ao redor do “eu”, portanto o “eu” não é totalmente autônomo. Podemos substituir circunstância por ambiente e dessa forma faremos Lamarck muito feliz esteja onde estiver.

É importante ressaltar que a teoria sintética da evolução não foi construída quando os diferentes autores se reuniram em uma sala para elaborá-la. Cada autor publicou seu ou seus trabalhos e cada um desses trabalho representou um tijolinho nessa construção. Passaram-se anos para que a obra ficasse pronta. É uma obra de um grupo de cientistas brilhantes muito famosos e respeitados nas respectivas áreas de conhecimento. Esses cientistas tinham muito claro que não poderiam permitir a interferência de ideologias negacionistas como aconteceu na Rússia com o Lysenkoismo.
Caro leitor, é possível criar uma teoria científica sem a participação da ideologia dos criadores? Fazendo a pergunta de outra maneira, é possível para o ser humano evitar a participação da sua ideologia nos processos em que esse ser humano está criando qualquer coisa, pode ser uma obra de arte, uma sinfonia ou uma teoria científica. Minha resposta: É muito difícil eliminar a ideologia nas criações dos humanos. Na criação, por muitos autores, da teoria sintética da evolução, tinha-se alguma ideologia que norteou essa construção? Minha resposta é um claro sim: todos tinham suas ideologias em diferentes graus e uma dessas ideologias, também em diferentes intensidades; era o determinismo genético. Por essa razão o gene está no coração da teoria, o gene é uma espécie de ”hard core” dessa teoria, para usar uma expressão de Irwin Lakatos (1974). É essa ideologia que acaba excluindo da teoria sintética da evolução o estudo da plasticidade das espécies, excluindo ainda a Biologia do Desenvolvimento (BD) e até da Ecologia (Gilbert & Epel 2015), creio eu pela aderência dessa matéria à influência do ambiente, palavra muito ligado ao Lamarckismo. Nos dias atuais, em pleno século XXI, a teoria da evolução está gradualmente incorporando as descobertas da BD e, sem dúvida, da Ecologia.

Para voltar as posições de Matt Ridley é importante informar que os acontecimentos na Rússia de Lysenko não foram aceitos por nenhum cientista fora da influência da URSS, pelo contrário. Os acontecimentos causaram uma revolta generalizada e nenhuma hipótese criada por Lysenko teve seguidores no ocidente. Comparar o debate atual entre um grande número de cientistas que estão preocupados com o aquecimento global e que são contestados por um pequeníssimo grupo de céticos que não acreditam no aquecimento é, no mínimo, desonesto com os acontecimentos da Rússia de Stalin: Lysenko fechou todos os laboratórios dos maiores biólogos da Rússia, mandou matar muitos deles e perseguiu suas famílias. As ciências biológicas na Rússia, até hoje, não se recuperaram dessa catástrofe. A comparação do que foi o Lysenkoismo com o debate atual sobre o clima só pode ser pode ser fruto de uma mente doentia.

Como explicar essa estranha posição assumida por Matt Ridley? Só encontro uma explicação: esse senhor, é um neoliberal radical, e defino neoliberal como alguém que tem um grave problema no sistema nervoso central que o leva a acreditar que existe o indivíduo autônomo, aquele que tem a posse de si, e esse indivíduo que se acha livre é a unidade fundamental dos sistemas sociais. Ridley acredita que ele possui um “eu” e esse “eu” é autônomo, é um “eu” que expulsou a empatia de sua vida. Ridley pode se curar dessa doença lendo alguns dos artigos de Sigmund Freud (1981) ou os livros de Jaques Lacan (2009), onde poderá perceber que ao acreditar no “eu” autônomo está ignorando todos os conhecimentos da psicanálise e da neurociência.

Sem dúvida quem está muito feliz com o artigo de Matt Ridley é o presidente do Brasil e sua família. Nos seus artigos, Ridley fornece um vasto material para que a família presidencial alimente sua quadrilha de seguidores na internet. Seguidores esses que, certamente produzirão milhares de “fake news”, com muitas notícias sobre teorias conspiratórias e dezenas de notícias negacionistas da ciência, e pior, poderão dizer que essas notícias têm como suporte os artigos de Matt Ridley, um cientista com PhD na Universidade de Oxford. Francamente, se eu fosse do grupo dirigente de Oxford, essa antiga e renomada universidade inglesa, já estaria entrando com um pedido para considerar Matt Ridley como “persona non grata”.

É importante lembrar que o nazismo/fascismo tem um diálogo fluido com o neoliberalismo. Nazismo e fascismo necessitam um Estado forte e autoritário com dois objetivos; 1 – manter intocado o poder monopolista dos empresários industriais; 2 - perseguir e eliminar impiedosamente todas as organizações sociais que contestem seu poder, quer dizer despolitizar a sociedade. Não tenho notícias de nenhuma empresa que tenha sido estatizada por Mussolini ou por Hitler. O neoliberalismo também necessita de um Estado forte e autoritário com três objetivos; 1 – que o Estado garanta a propriedade privada; 2 – que o Estado garante a liberdade negocial; 3 – que o Estado elimine qualquer oposição política, principalmente os sindicatos; quer dizer que atue com mão de ferro na despolitização da sociedade.

O sistema capitalista neoliberal se fundamenta no crescimento infinito do capital, extração infinita de recursos naturais não renováveis e isso deve ocorrer em um planeta finito. Qualquer análise de lógica elementar dirá que estamos no caminho da catástrofe. Existe uma expressão muito usada atualmente por pessoas, empresas, bancos, postos de gasolina e até por frigoríficos exportadores de carne bovina; é a expressão “desenvolvimento sustentável”. Essa é uma expressão usada com objetivos de puro marketing e, na minha opinião nenhum cientista responsável deveria usa-la. No Sistema capitalista as suas bases teóricas para crescimento econômico são: crescimento da população, crescimento da taxa de extração de recursos naturais, crescimento constante da produção e consumo de energia, crescimento constante da taxa de urbanização. Nesse contexto a palavra sustentável cria um grande e insolúvel paradoxo.
Imagem Bocaina

Lorem ipsum dolor,sit amet consectetur adipisicing elit.

Referências:

Dawkins R. 1976. O Gene Egoísta. Edusp. São Paulo
Gilbert, F.G.., Epel, D. 2015. Ecological developmental biology. Sinauer USA
Gliboff S. 2009. The case of Paul Kammerer evolution an experimentation in the 20th century. Journal of the History of Biology. Springer
Galton. F. 1874. English men of science their nature and nurture. Macmillan & Co. Disponível na internet.
Iglesias R.I. 2018. Capitaloceno a era da barbárie.
Koestler A. 1971. The case of the midwife tood. Hutchinson & Co. London
Freud S. 1981. Lo inconciente y la conciencia. La realiadd. Obras completas de Sigmund Freud. Tomo I: pg 712-720. Editorial Biblioteca Nueva
Lacan, J. 1998. O estádio do espelho como formador da função do Eu. In: Escritos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar
Harari. Y. 2018. 21 leciones para el siglo XXI. Penguin Random Grupo Editorial. Barcelona
Lakatos I. 1974, Falsification and the methodology of scientific research programs. In: Lakatos I, Criticism and the growth of knowledge. Cambridge: University Press;
Ridley M. 2015. The climate wars and the damage to science. The Global Warming Policy Foundation
Wilson E.O. 1976. Sociobiology: the new synthesis. Harvard University Press.